Fechado para balanço

Foto por David McEachan em Pexels.com

Os mercados e as lojas separam alguns dias do ano para o que eles chamam de “balanço”. Fecham as portas para o público externo para contar e recontar as mercadorias. O balanço é essencial para o comércio, pois conseguem entender quanto, o que e em quais condições se encontram as mercadorias. Muita coisa se descobre e muita análise é feita sobre a forma como aquele estabelecimento tem feito seus negócios.

Como seria benéfico para todos nós se compreendêssemos a importância que o balanço tem também em nossas vidas!
Nós nos acostumamos com a correria dos compromissos, com o barulho das ruas e das conversas. Nós nos deixamos levar pelo movimento do trânsito, das atividades, das reuniões e dos bares. “A vida corrida!” como dizemos com certa frequência…

Acontece que neste movimento ininterrupto de nossas vidas deixamos muita coisa entrar nos nossos corações inadvertidamente: rancor, maus pensamentos, medos, incompreensões, mágoas. E estes sentimentos são como árvores. Primeiro vem a inofensiva semente que encontra terreno onde possa lançar suas futuras raízes, depois vem a planta e seu tronco crescendo sem cessar e aquela semente quase invisível se torna uma imensa planta.

Imagine pois, o tamanho de uma floresta onde ninguém poda as árvores? Imagine a bagunça de um mercado que não faz o tão necessário balanço?
Assim também é nossa vida interior se nos deixarmos levar pela pressa de chegar. Vamos ser abafados pelas imensas árvores dos sentimentos ruins. Vamos ser desconhecidos de nós mesmos, pessoas que não sabem o que sentem.

Fazer o balanço significa se retirar por um tempo e olhar para dentro de si:

  • Quais pensamentos têm me tirado o sono? O que os provoca?
  • Quais sentimentos estão tomando minha alegria? Quando foi que eles entraram?
  • O que eu gosto? O que eu não gosto?
  • Por que meu coração tem andado tão acelerado? O que ele tem tentado me dizer?
  • Quem eu preciso perdoar para recomeçar?
  • Quais ressentimentos batem à minha porta todos os dias?
  • Quem e como eu tenho magoado as pessoas?
  • Quais vícios eu desenvolvi e como me livro deles?
  • Como está o amor que sinto por mim mesmo?

O balanço exige renúncia. O comércio renuncia ao lucro enquanto de portas fechadas, porque sabe do benefício futuro.

O que você acha de agendar seu balanço interior? Quem sabe ele não comece hoje mesmo? Amanhã? Feche as portas por um breve momento, conte, reconte e analise o que tem acontecido com você. Depois volte com mais força, mais energia, mais tranquilidade e principalmente, com mais amor próprio. O balanço mostrará o que tem sobrado, o que tem faltado e o que é preciso fazer daqui pra frente para que as coisas melhorem e se perguntarem porque você sumiu, responda sorrindo: “eu estava fechado(a) para balanço!”

“Renuncie a si mesmo”

 

photo of an abandoned workspace
Foto por Sander em Pexels.com

Você conhece um acumulador? Você é um acumulador?

Imagine um quarto cheio de objetos. Ao ponto de não ter mais como passar por ele para abrir a janela. Portanto, um quarto escuro, sem ventilação, sem passagem e cheio de toda sorte de objetos, acumulados ao longo do tempo. Objetos que, de uma forma ou de outra, ligam você ao passado, às pessoas, à sua história.

Os seus familiares e amigos começam a sugerir a você que está na hora de fazer uma faxina, doar alguns objetos, vender outros. Eles dizem que é preciso desapegar!

Você imediatamente se recusa. Não é possível que alguém sugira algo tão incabível! Afinal, toda a sua história está ali dentro, todo o seu passado. Cada objeto, uma lembrança.

Porém, os dias vão passando e você começa a pensar um pouco melhor na sugestão deles. A alegria e o comodismo de olhar para os objetos ali armazenados, agora dão lugar a um incômodo sentimento de bagunça, desequilibro, falta de ar.

Ainda resistindo, você começa a retirar um e outro objeto e, ainda em dor, começa a se desapegar deles: uma caixa para doação e uma caixa para venda começam a se encher. Você reluta em abandonar alguns dos objetos mais significativos, deixa-os para depois, mas finalmente consegue limpar todo o quarto que agora está limpo e vazio. Neste momento, você abre a janela e um ar puro e renovador entra por todo o cômodo e revitaliza aquele velho ambiente. O antigo quarto velho e abandonado dá lugar ao novo!

A nossa vida interior é exatamente igual! Nós somos capazes de carregar ao longo da vida muitos sentimentos e isso é ótimo. Acontece que entre estes sentimentos, nós somos carregamos e guardamos muitos sentimentos ruins: mágoa, ressentimento, rancor, ódio, culpa  e estes são os sentimentos que ocupam nosso quarto interior fazendo com que ele seja um quarto de bagunça, onde não há por onde passar, onde falta ar e entrada de luz.

Nós precisamos fazer uma faxina interior, mesmo sentindo dor e relutando, nós precisamos entrar no quarto, ver tudo o que guardamos durante a caminhada e decidir pelo desapego. Entretanto, para isso, nós precisamos de algo essencial: Renunciar a nós mesmos! Isso mesmo! Nós precisamos abrir mão do orgulho para termos coragem de decidir: “Aquele acontecimento passado não vai mais me atormentar!; “O que aquela pessoa fez comigo foi terrível, eu sofri, desabei, mas não há nada que eu possa fazer para mudar o passado. Então, decido que esse ressentimento não vai mais atormentar meu presente e assombrar o meu futuro!”

Não é fácil colocar pra fora do nosso quarto interior as coisas que carregamos há tanto tempo, mas é libertador. O quarto fica limpo, organizado, arejado e iluminado. Pronto para viver novas coisas, novas aventuras e novas experiências.

“O passado é uma roupa que não nos serve mais!” (Belchior)

O passado pode ter sido cruel conosco, mas ele não volta. Não há nada que possamos fazer para mudá-lo. O que nos resta é decidir com força, fé, coragem e esperança que ele não pode mais nos afetar no presente. Pois, hoje somos pessoas diferentes do que éramos naquela época e precisamos ter um quarto limpo para um futuro melhor.

Leo Pessoa